Centenário de Miguel Torga
fonte: Diário de Notícias
Quase a fazer cem anos sobre o nascimento de Miguel Torga, são reeditados de uma assentada três volumes que representam o melhor de dois dos lados de um autor bastante ecléctico: Portugal e Poesia Completa I e II.
Mas antes de irmos a eles há que pensar um pouco a existência torguiana à sombra desta distância que só faz bem à perenidade das obras que se querem imortais. Até porque no seu caso não há dúvidas - dissiparam-se a partir da década de 50 -, porque o autor decidira esculpir nas duras pedras de granito transmontano, de que tanto gostava, o perfil que desejava registar no seu futuro verbete da história da literatura portuguesa.
Basta lembrar as memórias de Eduardo Lourenço sobre o significado da presença deste 'lobo solitário' em Coimbra para consecutivas gerações que subiam a rampa do Quebra Costas até à Universidade: "Era um mito que todos queriam conhecer e ser amigo dele, mas que o próprio Torga afugentava ao escolher os que aceitava..."
O transmontano era assim e conseguiu manter esse negativo da película original sempre que o tentavam revelar para o positivo da posteridade de um outro modo. Não quer com isto dizer-se que não fosse um dos mais calorosos portugueses, mas, como os seus conterrâneos, não estava aberto à devassa do seu íntimo a não ser em circunstâncias privadas. Facto, aliás, que se confirma em grandessíssima parte da sua obra, pois o tom autobiográfico submerge-a em enorme amplitude. Torga não receava expor-se, fê-lo n'A Criação do Mundo e em dezasseis volumes de um Diário que é uma história crítica do Portugal salarazista, marcelista e abrilista e até ao início dos 90.
Estes dois volumes, de quase 500 páginas cada, são testemunho dessa entrega à verdade, uma das componentes que exigia à personalidade e à sociedade que o cercava. São, também, uma exposição clara e conflituante na sua obra poética, onde não encobre ou esconde sentimentos e dúvidas contraditórios sobre Deus e a morte. Em Poesia Completa I e II tem o leitor uma vasta expedição pelo interior do ser e do pensar de Torga, aquela parte da obra em que é mais sincero porque a poesia, apesar de ter também parto difícil, ficava definitiva e desautorizava-o de fazer as habituais dúzias de emendas. Facto que se comprova nas mínimas alterações aos poemas em cada reedição de um livro porque, dizia, era-lhe impossível reescrever o que vinha de dentro. Até porque, enquanto um outro poeta produzia dez poemas, Torga teimava na finalização de um verso.
A reprodução manuscrita nas capas de Poesia Completa de algumas linhas do poema "Ariane" não é suficiente para o leitor (virgem) se aperceber da tortuosa concepção da sua literatura, mas, ao ler estes dois volumes, entenderá essa forma do ser torguiano. Anulados que foram por vontade própria os primeiros livros - sob o nome de baptismo (Adolfo Rocha) -, e dos quais o autor apenas aceitou reproduzir um verso, vieram uma ampla série de volumes que a seu tempo lhe deram a fama de poeta e o proveito que Torga mais desejava, pois se lhe quisessem colar um rótulo que não o de médico agradecia que fosse o de poeta.
De norte a sul
Curiosamente, e dê-se aqui o salto temporal para o ano deste centenário, apesar de ter escrito 1167 poemas, parece que é pela prosa que Torga ficará mais perene na leitura dos portugueses. Assim o dizem alguns dos seus mais profundos conhecedores, como Manuel Alegre, trazendo Sophia de Mello Breyner Andresen à colação - a sensibilidade dos poetas torna-os os melhores prosadores. Por isso, esta oportuna reedição permitirá que tal fôlego torguiano não fique esquecido nas livrarias, como está a acontecer com a maioria dos autores nacionais recém--falecidos, calcados pelo lixo literário que resulta do boom editorial. Até porque a sua poesia permite, mais do que conhecer um lugar que é marca de um século acabado, entender o ser do homem que não se transformou com a viragem do século e que nasce do homem em mudança.
Está nessa Poesia Completa incluída a série dos Poemas Ibéricos, que permite saltar para a outra reedição, a de Portugal. Existiu em Torga uma luta constante entre a necessidade de viver a totalidade de um pensamento iberista e o orgulho de ser português sem ceder a investidas contra a nossa independência - nem mais tarde, às da União Europeia. Para Torga, a exigência de partilhar cultural e espiritualmente a península até aos Pirenéus traduziu-se na admiração dos Miguéis Unamuno e Cervantes, mas jamais aceitou que da fronteira para cá passasse mais do que isso. Editado em 1950, eleva e enleva a pátria sem ser um mero exercício de nacionalismo, porque não era dessa têmpera e insurgia--se contra o poder da força que promovia uma errada concepção de fecho à modernidade. |